“Investir em infraestrutura de escolas é o básico e o dever da educação pública”, afirma secretária
Publicidade 9

A educação pública envolve mais do que apresentar números. É preciso acompanhar de perto temas como alfabetização, recuperação da aprendizagem, expansão da Educação Profissional e Tecnológica, infraestrutura, permanência dos alunos, gestão, segurança nas escolas e equidade para diferentes realidades.
Nesta entrevista, a secretária de Estado de Educação, Flávia Soares, fala sobre os principais desafios da educação pública em Mato Grosso. Ela defende que os resultados devem aparecer no dia a dia das escolas e lembra que nenhuma política educacional se mantém apenas com dinheiro, sem gestão, acompanhamento e participação da comunidade.
Como a Seduc define as prioridades para a construção, reforma ou ampliação de escolas na rede estadual?
A infraestrutura escolar não é decidida sob pressão nem por motivos políticos. Ela atende a uma necessidade real da rede. Ao decidir construir, reformar ou ampliar, avaliamos a demanda por vagas, as condições do prédio, o crescimento da população, a localização, o transporte escolar, a oferta de vagas em tempo integral e a capacidade de atendimento da escola. Mas o prédio, por si só, não resolve a questão da educação. No caso da nossa rede, ele vem acompanhado de gestão, professores capacitados, equipe técnica treinada, alimentação de qualidade, tecnologia, mobiliário adequado e de uma rotina pedagógica. Nosso objetivo é continuar investindo em um ambiente seguro, limpo, organizado e propício ao aprendizado. Isso não é luxo, é o básico e o dever da educação pública.
Mato Grosso avançou na alfabetização e tem reforçado a recomposição da aprendizagem. Qual foi o principal desafio para reduzir as defasagens, especialmente nos anos finais?
Avançamos na alfabetização, mas isso não significa que o trabalho acabou. Pelo contrário, aumentou a nossa responsabilidade. Quando uma criança aprende a ler e escrever na idade certa, abrimos uma porta. O principal desafio foi manter essa porta aberta nos anos seguintes, com muita leitura, escrita e reforço em matemática.
O desafio atual é evitar que as defasagens se acumulem sem serem percebidas. Nossas escolas estão preparadas para perceber quem está aprendendo, quem está ficando para trás e onde cada estudante precisa de apoio. Em Mato Grosso, a recuperação da aprendizagem deixou de ser uma ação isolada. Ela faz parte da rotina pedagógica e é um dos focos do Regime de Colaboração.
O Acompanhamento Personalizado da Aprendizagem, que a Seduc implantou tanto na rede estadual quanto nas redes municipais, serve justamente para olhar cada estudante com mais atenção. O indicador passou a ser uma ferramenta de gestão, não um troféu. Ele mostra onde avançamos e, principalmente, onde ainda precisamos melhorar.
Com a ampliação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), como garantir a qualidade da oferta e a conexão com o futuro dos estudantes?
A educação profissional faz sentido porque, na nossa rede, ela está ligada à vida real. A oferta de mais de 40 cursos considera o projeto de vida do estudante, as vocações econômicas das regiões e as oportunidades já existentes ou a serem criadas.
Mato Grosso é um estado diverso. As necessidades de um município com agronegócio forte diferem das de regiões voltadas para serviços, indústria, tecnologia, turismo ou meio ambiente. A Seduc entendeu essas diferenças para que a formação técnica se tornasse uma ponte para o futuro, e não apenas mais uma disciplina. Muitas vezes, a EPT é o primeiro passo para o jovem conquistar autonomia, renda e participar do desenvolvimento do município onde vive.
De que forma a alimentação escolar, os uniformes, os materiais e os repasses às escolas contribuem para a aprendizagem?
Um estudante com fome, sem material, sem transporte ou sem acolhimento tem mais dificuldade para aprender. Nossa política pedagógica considera as condições reais em que vivem nossos 323 mil alunos. Os kits de materiais, uniformes, Chromebooks e recursos enviados às escolas têm um papel direto na redução das desigualdades. Criam condições para que o trabalho pedagógico ocorra com maior regularidade.
Também cuidamos do bem-estar. Temos 631 escolas estaduais que recebem estudantes com histórias muito diferentes. Alguns enfrentam vulnerabilidade social, conflitos familiares, ansiedade, violência no bairro ou precisam trabalhar cedo. O papel da escola é perceber esses sinais e agir antes que o estudante abandone a sala de aula. Nesse ponto, a equipe psicossocial tem sido fundamental. Manter o aluno na escola, aprendendo e convivendo em um ambiente organizado não é assistência separada da educação. É educação completa.
Como a Seduc concilia segurança, disciplina, convivência, acolhimento e o modelo cívico-militar nas escolas?
Segurança escolar não se resume ao controle de entrada e saída, embora isso também seja importante. Segurança envolve rotina, convivência, prevenção à violência, escuta, mediação de conflitos e presença da família. Uma escola segura é aquela em que o estudante conhece as regras e sabe a quem pedir ajuda quando precisa.
Temos 263 escolas cívico-militares que fazem parte de uma política que organiza a rotina escolar em unidades nas quais a comunidade aprova esse modelo. Mas é importante lembrar que o trabalho pedagógico é dos professores e da equipe educacional. O objetivo é criar um ambiente mais organizado para que o ensino ocorra.
Ao mesmo tempo, a Seduc mantém ações de mediação escolar e promove a cultura de paz. Isso é essencial. Existem conflitos que não se resolvem só com regras. Por exemplo, bullying, violência de qualquer natureza, trabalho infantil, evasão escolar e vulnerabilidades exigem diálogo, acompanhamento e articulação com outras políticas públicas.
Como garantir equidade entre escolas urbanas, rurais, indígenas e quilombolas e entre unidades que atendem estudantes da Educação Especial?
Equidade não é tratar todos do mesmo jeito. É reconhecer que os estudantes vivem realidades distintas e que a política pública precisa responder a essas diferenças com responsabilidade. A escola do campo não pode ser igual à urbana. A educação quilombola precisa dialogar com a memória, o território, a identidade e os saberes da comunidade. A Educação Especial exige acessibilidade, atendimento adequado, formação e acompanhamento. Projetos em escolas do campo e em unidades quilombolas não se tratam apenas de financiar atividades pontuais. O que a Seduc faz é fortalecer currículos, recompor aprendizagens e valorizar conhecimentos que fazem parte da vida desses estudantes. Isso também é aprendizagem. Aqui na Seduc, inclusão deixou de ser só discurso. Ela está presente no orçamento, na formação, na infraestrutura e na gestão. Se um estudante precisa de apoio específico para aprender, esse apoio não é um favor, é um direito. E o Estado tem a obrigação de garantir que esse direito chegue à escola.
Fonte: Política – O DOCUMENTO | Confira as principais notícias de Cuiabá, Mato Grosso e região (https://odocumento.com.br/investir-em-infraestrutura-de-escolas-e-o-basico-e-o-dever-da-educacao-publica-afirma-secretaria/)
